Alter - Vol. XXVIII nº 2- 2010
Evolução da Psicanálise nos 100 anos da Ipa
Alter - 40 anos
Editorial
Editora: Ambrozina Amália Coragem Saad
Co-Editora: Regina Lúcia Braga Mota
Conselho Editorial:
Ana Velia Vélez de Sanchéz Osella
Elias Abdalla Filho
Márcio Nunes de Carvalho
Maria Fátima Silveira dos Santos
Maria de Lourdes Teodoro
Maria Luiza Gastal
Maria Nilza Mendes Campos
Roberto Calil Jabur
Selma de Oliveira Barreiros Porto
Consultores:
Alcira Mariam Alizade
Ana Rita Nuti Pontes
Jansy Berndt de Souza Mello
José Vieira Nepomuceno Filho
Miguel Calmon Du Pin e Almeida
Roosevelt Moisés Smeke Cassorla
Suad Haddad de Andrade
Vera Lúcia Colussi Lamanno Adamo
Resumos dos artigos
Da ideia freudiana de narcisismo primário à ideia de subjetivação: duas abordagens complementares em psicanálise
Bernard Penot, Paris
Resumo: O pensamento de Freud não parou de evoluir entre dois campos de referência. Por um lado, ele jamais abandona a óptica de uma individualidade orgânica onde se desenvolveriam as “qualidades da alma”; mas por outro, a gênese do sujeito fica dependente das interações com seus primeiros interlocutores. Nós ainda temos de integrar melhor as linhas de força dessa tensão teórico-prática, entre o narcisismo individual e a subjetivação relacional. Durante todo o século XX, o movimento psicanalítico foi o palco de movimentos divergentes. Cada um se preocupou em prolongar um dos referentes fundamentais que serviam de base para a complexidade da obra de Freud. Uma leitura crítica comparativa de dois textos freudianos – “Sobre o narcisismo: uma introdução” (1914/2006g) e “Pulsões e destinos das pulsões” (1915/2006i) – concebidos com um ano de intervalo, pode ajudar a articular melhor essa tensão teórica, para além de suas aparentes contradições. O par narcisismo-subjetivação está de fato em melhor condição de fazer entrar em ação os registros arcaicos da transferência, em muitas análises (ou curas) e tratar estes “transtornos graves de subjetivação” (patologias ditas narcísicas ou do comportamento) que o psicanalista tem com freqüência diante de si, quer ele trabalhe sozinho ou em grupo.
Palavras-chave: narcisismo primário; auto-erotismo; libido; energias; ideal, supereu; eu, objeto, sujeito; vida amorosa, amor parental; pulsões sexuais, de auto-conservação, de morte; subjetivação.
A intuição do transicional em Freud: raízes teóricas de um conceito-chave do pensamento de D.W. Winnicott
Roberto Barberena Graña, Porto Alegre
Resumo: Este estudo procura trazer à luz alguns rudimentos da noção de transicionalidade que já estão presentes e podem ser mapeados na obra de Freud desde seus anos iniciais. A intuição de um campo transicional parece estar sugerida, sem que Freud lhe dê em momento algum uma atenção particular, em seus escritos sobre o humor, o brincar, a análise de crianças, a criação literária, a relação transferencial etc., sendo possível vislumbrá-la a posteriori na condição de um esboço desatendido do que seria efetivamente descoberto e desenvolvido plenamente por Winnicott ao longo do período fecundo que situaremos entre 1941 e 1971.
Palavras-chave: transicionalidade; transferência; ilusão; criatividade; brincar; curar.
As psicopatologias atuais
Gley Silva de Pacheco Costa, Porto Alegre
Resumo: O autor aborda a mudança observada na clínica psicanalítica nos últimos vinte anos, aproximadamente, enfatizando que na atualidade predominam patologias que, do ponto de vista teórico, técnico e clínico, diferem das neuroses, psicoses e perversões. Os sintomas de um grande número desses pacientes decorrem de uma fixação a uma etapa do desenvolvimento em que o aparelho mental é incapaz de responder por si só aos estímulos endógenos e exógenos, gerando uma experiência de desvalimento quando não conseguem contar com a ajuda de um ambiente empático. Para dar conta dessa clínica, impõe-se a necessidade de um novo paradigma, capaz de ampliar a psicanálise para uma mente cuja lógica não é mais a do prazer-desprazer de uma erogeneidade representada, mas, a da tensão-alívio de descargas, muito mais primitiva e destituída de subjetividade.
Palavras-chave: trauma; angústia automática; desestimação do afeto; consciência originária; desvalimento; clínica contemporânea.
Desafios da clínica psicanalítica ontem e hoje
Delza Maria da Silva Ferreira de Araujo, Goiânia
Resumo: O presente artigo procura expor algumas reflexões sobre a prática da clínica psicanalítica desde seus primórdios até os dias atuais. Freud (1923), ao conceituar a psicanálise, diz que a mesma é uma prática psicoterápica e também um método de investigação dos processos mentais inconscientes. Em sendo uma clínica viva que investiga seus próprios processos em andamento, autores contemporâneos apontam alguns desafios que se impõem àqueles que se propõem a realizar a clínica psicanalítica ontem e hoje.
Palavras-chave: psicanálise; clínica psicanalítica; evolução da psicanálise.
Sobre o splitting entre animado e inanimado
Vera L. C. Lamanno-Adamo, São Paulo
Resumo: A partir de uma experiência clínica, a autora investiga estados mentais subsidiados por permanente splitting entre animado e inanimado. Articula pontos centrais de seu pensamento com os conceitos de alucinação negativa, barreiras autistas, configuração flácida de continência; e com os sistemas sociais contemporâneos, no modo como eles se impõem e se perdem no delírio do próprio funcionamento.
Palavras-chave: splitting entre animado e inanimado; barreiras autistas; alucinação negativa; continência flácida; fenômenos sociais extremos.
Prevenção da violência pelo resgate da função parental: escuta psicanalítica em uma ONG da periferia de São Paulo
Cândida Sé Holovko, São Paulo
Edoarda Paron Radvany, São Paulo
Resumo: Neste breve texto abordamos a experiência de trabalho com uma população da periferia atendida por nós na ONG Arrastão, que vive numa posição social de exclusão, na qual muitas das necessidades vitais não só não são contempladas, mas continuamente violadas. A ênfase do trabalho centrou-se na escuta psicanalítica a um grupo de mães com o objetivo de intervir na prevenção à violência nas relações familiares. Constatamos que a violência que essas próprias mães sofreram e reproduziam ao lidar com os filhos era resultado daquilo que tinha ficado sem sentido e por isso era reproduzida pela compulsão a repetição que se expressava transgeracionalmente.
A maior parte do tempo trabalhamos com o presente, em busca da construção de um sentido, de um futuro. O passado, como referência histórica, foi incluído para atualizar-se por meio de novas configurações. Os analistas, testemunhando esse depoimento, outorgaram legitimidade para estas memórias agora compartilhadas, criando uma vivência real e menos fantasmática, um caminho para a simbolização.
A intervenção psicanalítica no grupo funcionou não só como espaço de contenção e de elaboração psíquica, mas também criou uma rede comunitária solidária, deu esperança para acreditar em um futuro não tão dramático, favorecendo o desenvolvimento cognitivo/afetivo/emocional e a inserção social de seus participantes.
Palavras-chave: violência; transgeracional; transferência para o futuro.
Corpo, fantasia e representação na obra de Bellmer
Jansy Berndt de Souza Mello, Brasília
Resumo: O presente trabalho procura desenvolver três temas (fantasia, corpo e representação em psicanálise) a partir da obra de Hans Bellmer. Esse artista criou uma sequência de imagens para compor um atlas que representasse “o inconsciente físico”. Através das suas ilustrações propõe a subversão da forma pela qual se estuda e entende a marca da fantasia agindo sobre o corpo humano, valorizando o que o mundo das histéricas revelara a Freud. Em vez de palavras, apresenta um dicionário de imagens que reproduzem o mundo onírico próprio às operações do processo primário freudiano. Partes do corpo e sua relação ao ambiente, são deslocadas e recombinadas, como se fossem sílabas numa frase percorrida de trás para a frente, ou explorada a partir das suas contradições. Baseando-me no que Bellmer deixou registrado por escrito (principalmente seus palíndromos e a teoria sobre as articulações corporais) tornou-se possível observar como, nele, a divisão do ego (que antecede a criação do fetiche) e o emprego dos mecanismos da identificação projetiva, constituem uma modalidade perversa da representação mental que, apenas aparentemente, ganha forma no papel, na tela, assim como na anatomia humana. Por meio da representação mental perpetua-se o impasse diante da “coisa” que não se pode colocar em palavras ou desenhar, e que não se consegue abandonar para tender ao “objeto”. O mundo onírico, do qual tanta arte brota, quando parcialmente isolado do simbólico pela recusa (na Verwerfung freudiana) guarda consigo a virulência da identificação projetiva, no sentido dado por Bion.
Palavras-chave: fantasia; identificação projetiva; recusa; divisão do ego; inconsciente físico; palíndromo; perversão; fetichismo; discurso.
Supervisão: reflexões
Ronaldo M. de Oliveira Castro, Brasília
Resumo: O autor tece algumas considerações relacionadas à supervisão oficial. Destaca a função e as possíveis distorções da atividade do supervisor. Assinala a importância de questões relacionadas ao supervisionando e ao vínculo supervisor/supervisionando. Finalmente, aborda a elaboração dos relatórios clínicos oficiais.
Palavras-chave: supervisão; função do supervisor; supervisionando; vínculo supervisor-supervisionando; relatórios clínicos.
XIII Encontro de Institutos da Fepal
João Batista N. F. França
Entrevista
Comentários sobre uma entrevista: Bion e o método
Lenita Maria Junqueira Schultz
Leituras
Passagens secretas: teoria e técnica da relação interpsíquica
Autor: Stefano Bolognini | Resenhado por: Lúcia Cristina Pimentel
Cadernos sobre o mal: agressividade, violência e crueldade
Autor: Joel Birman | Resenhado por: Carlos César Marques Frausino
Winnicott: seminários gaúchos
Organizado por: José Outeiral et al | Resenhado por: Fernanda Barros
Winnicott: seminários de Londrina
Organizado por: José Outeiral et al | Resenhado por: Camila P. Fleury Oliveira
A onda
Direção: Dennis Gansel | Resenhado por: Maria de Lourdes Teodoro