COLUNA DA PRESIDENTE

Maria Silvia Valladares

 

 

Tornar-se psicanalista

 

     O mundo de hoje difere enormemente daquele vivido por Freud quando ele estabeleceu os eixos básicos de sua teoria. São grandes as mudanças nos referentes sociais e culturais que organizam a subjetividade, a família, as funções materna e paterna.

    Quando José Nepomuceno convidou-me para proferir o Seminário Inaugural da Oitava Turma de Formação em Psicanálise, do Instituto de Psicanálise Virgínia Leone Bicudo, confesso que  fui tomada por um tumulto de emoções, como costuma acontecer quando tenho que preparar algum trabalho para apresentar em público. É mais fácil o contato em seminários teóricos e clínicos em pequenos grupos. Mas não tenho a pretensão de dar uma aula e sim dar uma idéia de como eu introjetei a Psicanálise e a função psicanalítica.

      A  saudosa pioneira da psicanálise em Brasília – Virginia Leone Bicudo, nome e presença definitivamente inseridos em nossa Instituição. - costumava dizer que o analista nasce analista. Penso que, com essa afirmação, ela se referia à capacidade – por um lado, inata, e, por outro, também adquirida ao longo do desenvolvimento emocional do indivíduo – de lidar com o fenômeno psíquico, os conflitos, os sofrimentos e a dor mental.

     Espera-se que essa capacidade tenha sido avaliada em todos vocês no processo de seleção. A semente está aí, a partir de hoje está sendo plantada. Mas, como regá-la, cultivá-la para que vocês possam realmente vir a se tornar psicanalistas? É uma responsabilidade de todos nós – da Instituição, é lógico, mas também e principalmente de cada um de vocês.

     Consideramos que a decisão de tornar-se psicanalista ocorre no processo de análise pessoal no qual o paciente-candidato se confronta com os mistérios de sua existência, seus vazios e incompletudes, com a impossibilidade de reverter ou apagar a sua história, fazer a travessia da castração.

     A partir daí, torna-se possível entender a maneira singular como se forma um analista; formação assentada sobre o tripé: análise pessoal, formação teórica e trabalho clínico sob supervisão.

     O saber teórico, a transmissão da psicanálise deve passar por uma comunidade de psicanalistas e pelas condições institucionais de seu funcionamento – no caso, o nosso Instituto, seu programa de ensino. Para Freud (1923), os pilares da teoria analítica, quais sejam: a aceitação dos processos inconscientes, o reconhecimento da doutrina da resistência e do recalcamento, a consideração da sexualidade e do complexo de Édipo são os conteúdos principais da psicanálise e os fundamentos de sua teoria e – diz ele – quem não está em condições de subscrevê-los não deveria contar-se entre os psicanalistas.

     Assim sendo, ser um teórico da psicanálise não conduz alguém a tornar-se psicanalista. O que irá defini-lo no ofício psicanalítico é a clínica, que, a meu ver, vai expressar como ele vivenciou a teoria psicanalítica em sua análise pessoal e em sua formação.

     Penso o percurso psicanalítico como um processo criativo que molda a experiência, processo esse permeado por paixão, desejo de conhecimento – de si mesmo e do outro, nosso parceiro analisando.

Hoje, mais do que nunca, tornar-se analista é viver, com freqüência situações nas quais é intensa a pressão para deixar de sê-lo. Posto que a arte do analista põe em cena o seu próprio inconsciente,  o analista leva para seu consultório, não apenas suas qualidades humanísticas (generosidade, criatividade), mas principalmente a si próprio: sua dor, seus conflitos, incertezas, angústias e junto com isto a sua capacidade de analisar a si mesmo e ao outro, abrindo os espaços de sua mente, para conter e transformar as angústias e dores de seu paciente.

Penso que é fundamental ter fé, acreditar na psicanálise, nos encontros analíticos, aceitar perdas e ganhos que certamente irão ocorrer dos dois lados.

     Mas, é bom ressaltar: tornar-se psicanalista é uma constante em cada dia de nossas vidas. Nunca estamos prontos. Temos que estar sempre abertos a mudanças, ao novo. É um constante vir a ser, como o próprio desenvolvimento do indivíduo. E, falando em desenvolvimento, lembrei-me dos filhos, e vocês hoje  são os filhos, que certamente esperam de seus analistas e da SBP, conforto, segurança, acolhimento, enfim. E gostaria de finalizar, lembrando as últimas palavras de Bion em um carta aos filhos, de 1964:

    A única coisa que deveria nos interessar, e que sempre me interessou, é que possamos ter um conhecimento de nós mesmos e dos outros, que nos torne capazes de tirar o máximo proveito daquilo que a vida nos reserva.

      [...]

     Depressão e insucesso são uma parte de toda vida, mesmo da mais feliz e bem sucedida. Eu diria até, especialmente da mais feliz e bem sucedida: é o preço que se paga pela alegria e pelo sucesso, se eles cruzam seus caminhos. Mas o preço que se paga ao tentar evitar insucesso e depressão é dez vezes pior. O início de conversa, felicidade e sucesso são coisas muito boas por si mesmas. O assunto é bem diferente, se vocês se sentem obrigados a ser "felizes” e “bem sucedidos” por temerem o insucesso e a depressão, isto compromete o sucesso, pois aí sentimos que ele está acobertando alguma coisa. O insucesso e a depressão tornam-se artifícios que já não podem ser encarados como alguma coisa que as pessoas comuns contornam com facilidade todos os dias. Eu gostaria que vocês elaborassem seus próprios julgamentos e tomassem suas próprias decisões. Mas eu pretendo que vocês o façam por razões verdadeiras. É fácil para mim escrever tudo isto, mas para ninguém é fácil praticá-lo.”